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O relógio da notícia não para, mas, às vezes, ele cobra o tempo que não deveria cobrar.

Marco Túlio da Silva

O relógio da notícia não para, mas, às vezes, ele cobra o tempo que não deveria cobrar.

20/4/2026

O relógio da notícia não para, mas, às vezes, ele cobra o tempo que não deveria cobrar.

Na tarde de 15 de abril de 2026, na BR-381, em Sabará, o carro de reportagem da Band Minas seguia mais uma pauta de rotina. No banco do motorista, o repórter cinematográfico Rodrigo Lapa, 49 anos. Ao lado, a repórter Alice Ribeiro, 35. Voltavam de uma cobertura sobre a própria rodovia — ironicamente conhecida como “Rodovia da Morte” — quando o veículo colidiu frontalmente com um caminhão.

Rodrigo morreu no local. Alice foi socorrida em estado gravíssimo, levada ao Hospital João XXIII, mas teve morte encefálica confirmada no dia seguinte.

Ela deixa um filho de apenas nove meses. Ele, uma filha pequena e uma trajetória marcada pela dedicação ao ofício e à solidariedade, com trabalho voluntário em hospitais.

A notícia que custa a vida de quem a produz

Há uma dimensão pouco visível no jornalismo: o deslocamento constante, o improviso, a urgência que transforma qualquer trajeto em potencialrisco. O público vê o produto final, a reportagem no ar, mas não enxerga opercurso.

Equipes reduzidas, prazos apertados e a pressão por estar “ao vivo” criam um dilema permanente para o repórter: recuar ou cumprir apauta? Esperar ou chegar primeiro? Avaliar o risco ou entregar a notícia?

Na prática, essa escolha raramente é livre, conforme abordado pela com ênfase pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e oSindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG).

Segundo relatórios da UNESCO, mais de 1.200 jornalistas foram mortos no mundo nas últimas décadas, muitos fora de zonas de guerra, emcoberturas cotidianas. A Federação Internacional de Jornalistas também apontaum crescimento consistente de ameaças, agressões e mortes ligadas ao exercícioda profissão, incluindo acidentes em deslocamento, uma das causas menosdebatidas.

No Brasil, o cenário se agrava com violência urbana, estradas precárias e rotinas extenuantes. O risco não está apenas na pautapolicial ou em áreas de conflito: ele está no caminho e no cansaço.

A engrenagem invisível: a escala 6x1

Por trás dessa tragédia há um pano de fundo que ultrapassa o jornalismo: o modelo de trabalho.

A escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)tornou-se símbolo de um debate nacional. Defendida como padrão “legal”, ela tem sido cada vez mais questionada por seus efeitos cumulativos.

Não se trata apenas de quantidade de dias trabalhados. Trata-se da qualidade do descanso.

Um único dia livre, isolado, frequentemente é consumido por tarefas básicas: resolver pendências, cuidar da casa, recuperar o sono. Não hárecomposição plena. O corpo permanece em estado de fadiga contínua.

Em profissões como o jornalismo, policiais, área de saúde eAuditores Fiscais, que exigem atenção constante, deslocamento e decisões rápidas, isso é ainda mais crítico. O cansaço reduz reflexos, comprometejulgamento e aumenta a exposição ao risco.

O que deveria ser uma jornada vira um ciclo de desgaste.

E como mencionado, não é um fenômeno restrito às redações.

O eco no serviço público mineiro

Em Minas Gerais, relatos semelhantes emergem da Secretaria de Estado de Fazenda. A sobrecarga, a pressão por resultados e a defasagem dequadros têm produzido um movimento silencioso: pedidos de exoneração deAuditores Fiscais.

O fenômeno, exposto por iniciativas como o perfil “AprovadosSEF-MG 2023”, revela uma realidade preocupante: profissionais altamente qualificados optando por sair, não por falta de vocação, mas por condições detrabalho que se tornaram insustentáveis.

Assim como no jornalismo, há um padrão que se repete: menos pessoas, mais demandas, maior pressão.

E um limite humano que insiste em ser ignorado.

Saúde é a base de tudo

A Organização Mundial da Saúde é clara ao definir saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, não apenas a ausênciade doença.

Sob essa perspectiva, jornadas prolongadas, descanso insuficiente e ambientes de alta pressão não são apenas questões trabalhistas. São fatoresde adoecimento.

A OMS já classificou o burnout como fenômeno ocupacional. E ele não surge do acaso, nasce justamente desse desequilíbrio crônico entreexigência e capacidade de recuperação.

A escala 6x1, quando combinada com jornadas estendidas e cobranças permanentes, se aproxima perigosamente desse limite.

O que fica

Ficam as imagens do carro destruído.
Ficam as redações em silêncio.
Ficam famílias que não terão mais o retorno esperado ao fim do expediente.

Rodrigo Lapa e Alice Ribeiro não morreram apenas em um acidente. Morreram no exercício de uma profissão que exige entrega, muitasvezes além do razoável.

Que suas histórias não sejam reduzidas a uma manchete.

Às famílias, amigos e colegas, ficam as mais sinceras condolências.

E à sociedade, especialmente aos atores políticos, fica um alerta que não pode mais ser adiado: repensar a escala 6x1, reavaliar ascondições de trabalho no setor público e privado, e alinhar essas decisões aoque a Organização Mundial da Saúde entende como saúde.

Porque, no fim, nenhuma pauta, nenhuma meta e nenhum indicador justificam o preço de uma vida.

Por Marco Túlio da Silva

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